Por norma fazemos férias fora da época alta, este ano decidimo-nos por dois países, sendo que eu não conhecia nada de Marrocos.
Avassalador. É esta a palavra que melhor traduz a minha percepção de Marrocos.
Tudo começou no sobressalto. Passei quase 2 semanas convencida de que tinha as férias todas planeadas, para logo a seguir achar que já não iríamos. Foram dias a consciencializar de que o nosso voo seria cancelado devido à greve da EasyJet. Na verdade, só acreditei que o destino era real quando o avião começou andar na pista.
A chegada foi um choque de realidade. Fomos subitamente confrontados com o caos fascinante do trânsito — um verdadeiro "salve-se quem puder". Carros e motas por todo o lado, famílias inteiras equilibradas sobre duas rodas, cabras na caixa aberta das carrinhas, sem regras ou cedências. Ao sairmos da carrinha a caminho do nosso riad, em plena praça principal, mergulhámos nos souks: ruas estreitas e labirínticas, burros e carroças a abrir caminho, scooters a fazerem-nos razias, bicicletas em rota de colisão e um guia que não andava, voava à nossa frente. Tudo rodeado duma sinfonia de ruídos e abordagens de todo o género. Foi, no mínimo, assoberbante. Acho que só processei verdadeiramente onde estava quando, finalmente, me deitei na cama nessa primeira noite.
Nos dias seguintes, rumámos ao deserto do Sahara, pontuando o caminho com várias paragens. O ritmo abrandou e deu-nos espaço para perceber que Marrocos não é apenas aquele frenesim quase surreal das cidades, mas também a serenidade da vida rural. Adorei cruzar as aldeias e testemunhar a autenticidade do povo berbere.
O deserto conquistou-nos. Para lá chegar, fomos de jeep (confesso que pensei que ia morrer, o motorista disse que não era necessário cinto, mas vi a minha vidinha a andar para trás nalgumas dunas, já para não falar nas cabeçadas, se o Dakar é assim então já tenho a experiência no bucho) — optámos por não andar de camelo por respeito aos animais, algo em relação ao qual, felizmente, eu e o Cláudio partilhamos a mesma visão, odiei ver isso. Acordar no silêncio do deserto, percorrer as dunas de madrugada em moto 4, parar, respirar e contemplar o nascer do sol no meio do nada foi uma experiência absolutamente mágica.
De regresso a Marraquexe, aprendi a gostar do frenesim, demorei a habituar-me, foi o mais diferente que tive. Admito que odiei a arte de regatear — era desgastante e, em certos locais, optámos por nem o fazer, por respeito aos artesãos. Em contrapartida, comemos incrivelmente bem nas pequenas tascas escondidas nos souks e rendemo-nos aos sumos de fruta frescos, imperdíveis.
Guardamos memórias de pessoas fantásticas que se cruzaram no nosso caminho: o vendedor que lia Nietzsche e admirava Saramago; o jovem do restaurante que só falava amazigh e árabe, mas pediu envergonhado ao colega para nos dizer o quanto gostava de Portugal; o nosso guia, castiço e sempre disponível, que pedia constantemente o isqueiro ao Cláudio sem que nunca o tivéssemos visto a fumar; o motorista, cativante e de um carisma enorme mesmo sem falarmos a mesma língua; e os rapazes das dunas, que nos guiaram no silêncio do deserto e nos tiraram fotografias incríveis.
Se voltaria? Sem dúvida. Marraquexe merece um regresso; o Sahara, talvez noutro país, para evitar as longas horas de viagem de carro.
No final de tudo, ficámos irremediavelmente fãs de Marrocos.
Seguimos diretamente de Marraquexe para...
Londres, a paragem seguinte, não foi uma novidade para nós...
Ainda assim, estas férias foram um verdadeiro exercício de adaptação dos sentidos. Levou-nos do pulsar vibrante do Sahara e de Marraquexe para o ritmo imponente de Londres, transformou a experiência em algo muito maior do que uma simples mudança de destino: tornou-se numa verdadeira antítese.
De um lado, Marraquexe acolheu-nos com um sobressalto sensorial inesquecível. É uma cidade quente e envolvente, onde a cultura não se visita: vive-se e sente-se na pele.
No extremo oposto surgiu Londres. Onde Marraquexe é calor, cor e imprevisibilidade, Londres apresenta-se como uma metrópole monumental, previsível e fria. No entanto, a grande redenção de Londres para com os seus visitantes está na democratização da beleza e do conhecimento: os seus museus e a arte gratuita.
Entrar na National Gallery e em ambos os Tate sem pagar é um privilégio cultural de valor incalculável. É ali, entre inúmeras obras de arte em galerias grandiosas, que Londres nos conquista. Se Marraquexe nos ofereceu a cultura viva das ruas e do quotidiano, Londres entregou-nos a cultura preservada, catalogada e exposta de uma forma admirável.
No fundo, viajar entre estas duas cidades é navegar entre dois mundos e duas formas opostas de vivenciar a arte e a história...
Se voltaremos a Londres tão cedo? Provavelmente não. Já a Marraquexe e a Marrocos, sim — muito possivelmente dentro de um ano.
As fotografias foram todas tiradas com os nossos telemóveis e com a Kodak Charmera 1987












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